Data: Janeiro, 2026 – Ainda estamos nas férias, mas já é tempo de pensar no ano que inicia. São rotinas com trabalho, estudo, pagamentos anuais e muitas outras preocupações que, de alguma forma, afetam a nossa saúde mental. E tudo isso pode ser mais tranquilo, se o cuidado começar agora, nas férias. Como? Aproveitando os momentos em família, se divertindo, fazendo atividades juntos, conversando e organizando o novo ano com o apoio de todos.

A médica psiquiatra Priscila Rosaly Paegle Beltrão de Souza, explica que a ansiedade e a depressão, muitas vezes, ocorrem por aspectos que nos fazem ser pegos de surpresa e causam frustrações. “Ensinar os filhos e a família a ter o hábito de planejar as coisas pode ser algo que ajuda a prevenir situações que podem causar estresse. Claro que existem situações que não estão no nosso controle, mas ter um planejamento anual, mensal, para a semana ou para o dia seguinte e imprimir isso no dia a dia dos nossos filhos é algo que é bastante relevante, e  fará com que eles possam começar a planejar melhor as coisas, com uma caderneta, um caderno ou até mesmo no celular. Porém, sabe-se que caderno, papel e caneta, são coisas que ajudam muito mais o cérebro do que uma agenda digital”, ensina.

A Katia Kamers, 46 anos, é professora, trabalha em três turnos e, junto com o esposo e o filho Mateus, de 24 anos, que também são professores, ela organiza com cuidado as despesas que terão durante o ano, além das atividades que eles priorizam em família. Ela também é mãe da Ana Júlia, de 13, que exige atenção com a rotina de estudos e com as outras atividades que faz quando não está na aula. Com isso, a professora conta que o planejamento é essencial, tanto nas atividades diárias, quanto nos momentos que estão em família passeando ou na cabana que possuem, no interior.

“Eu, como mãe e professora, eu acredito que planejar é algo muito importante, tanto financeiramente quanto em questão de qualidade de tempo, um tempo de qualidade que sobra para termos com a família. Portanto, como nós temos muitas despesas, fizemos um planejamento dentro de uma planilha, tudo bem calculado, com todas aquelas dívidas que acontecem todo ano, como o IPTU, IPVA, o imposto de renda, material escolar e o uniforme, entre outras. Sabemos que vamos iniciar o ano com todas essas despesas, por isso guardamos uma parte do nosso décimo terceiro salário para passar um início de ano mais tranquilo. Durante o ano sempre planejamos alguma viagem, então vamos guardando, fazendo uma caixinha para que essa viagem aconteça. Esse dinheiro sempre é separado, cada um de nós que trabalhamos, que somos três, reserva uma parte e depois definimos em família para qual lugar vamos viajar, o que vamos gastar e o que vamos gastar, para que não haja nenhum tipo de atropelo durante esse processo. No segundo semestre, nós planejamos o fim de ano e os próximos meses”, conta a professora.
ATIVIDADES EM FAMÍLIA AJUDAM NA SAÚDE MENTAL DE TODOS
Ainda segundo a médica, é importante iniciar com uma boa conversa entre os adultos, fazendo uma avaliação da identidade da família. O que é importante para a família? O que não está funcionando e o que precisa melhorar? “Promover piqueniques, eventos, trilhas, andar de bicicleta ou de roller, são atividades que passam por um desejo dos pais de mudança e isso vai  proporcionar ao filho vivenciar outras experiências com os pais. Se os pais só ficam em casa, se eles pedem comida pelo iFood o tempo todo e ficam nas telas a maior parte do tempo, eles não estão oferecendo aos filhos experiências diferentes. Se tiver que usar a internet, que tal pesquisar receitas e  envolver a família num prato para receber uma visita?”, sugere a médica.

A psiquiatra Priscila Rosaly Paegle Beltrão de Souza lembra que, quando falamos em melhorar a saúde mental de todos em prevenir, gostaríamos de uma pílula mágica que pudesse gerar mudanças e comportamentos rápidos, mas isso passa por ações consistentes no dia a dia. “É necessário mudanças em hábitos diários, como os horários de dormir que são muito importantes para os filhos, ter uma rotina, ter horários de refeição em família, pois ajudam a criança a ter uma saúde emocional melhor, uma saúde física. As atividades extracurriculares também são importantes para proporcionar aos seus filhos experiências diferentes, como acesso a uma língua diferente ou o aprendizado de atividades técnicas diferentes como lutas, natação, entre outras, porque existem talentos nos nossos filhos que não são despertados se eles não tiverem acesso a essas experiências, e cabe a gente promover isso”, aconselha a médica.

Lembra da professora Kátia, lá do início da reportagem? Ela descreveu sobre a rotina extensa que ela, o esposo e os filhos têm durante a semana, contou sobre o planejamento financeiro que fazem para evitar estresse durante o ano que inicia, mas também falou da importância dos momentos em família, exatamente como a médica psiquiatra orienta acima, como sendo momentos fundamentais para preservar a saúde mental de todos, unindo planejamento e qualidade de vida.

“Durante a semana, nós permanecemos no nosso apartamento, no centro da cidade, mas eu não abro mão de preparar o café da manhã, assim como no almoço, únicos horários em que podemos sentar, conversar e fazer as nossas refeições juntos. É o momento de olhar para o outro e saber que aquela pessoa está ali, naquele momento, e aquele momento então é dela. Eu, como mãe,  priorizo muito estar junto com os meus filhos. O estar junto com a família, isso é algo muito importante. Quando chega o fim de semana, nosso destino é a cabana que temos no interior. Lá a gente sempre tenta deixar as telas de lado e focar no que realmente importa, que é a presença de cada um que está ali, cozinhando, conversando ao redor da fogueira, contando uma história, plantando uma árvore no bosque que estamos construindo, realmente, brincando com os nossos filhos, especialmente, a minha adolescente que precisa da nossa orientação. Estes são os vínculos que fazem com que nos tornemos uma família unida”, a Kátia conta com orgulho.

DICAS PARA A FAMÍLIA
“A união da família vai sempre passar pela comunicação e pelo respeito. É óbvio que numa mesma família existirão as diferenças, mas é fundamental ter em mente que o carinho e o amor devem vir antes destas diferenças. A questão do álcool sempre com moderação, porque o álcool, drogas ou outra substância psicoativa, pode tirar o filtro das pessoas e, dentro de um ambiente familiar, podem surgir conversas inconvenientes que vão machucar e ofender e depois de falar dessas palavras, não tem mais como retirar”, lembra a médica psiquiatra, reforçando tudo o que disse anteriormente.

Conforme a médica, outra dica para preservar a saúde mental, especialmente das crianças e adolescentes, é elogiar e encorajar sempre nas pequenas vitórias e economizar nas críticas. “As palavras precisam trazer uma outra opção, não simplesmente que algo está errado, mas explicar que não foi legal, que na próxima vez que acontecer que tal fazer diferente, pois isso ajuda também a criar uma auto-imagem. Os pais e os adultos da família são responsáveis por criar a auto-imagem e a autoestima dessa criança, que podem ser a matéria-prima para todos os relacionamentos que virão na vida dessa pessoa. Por exemplo, se a criança cresceu com encorajamentos, com palavras de afirmação, com acolhimento, ela vai estar muito melhor preparada para a vida do que num ambiente extremamente crítico ou num ambiente onde há um desprezo, onde não há uma atenção. Portanto, explique as situações para essa criança com sinceridade e ela vai conseguir entender”, aconselha a profissional.